Passado, presente e futuro: o entrelaçamento do tempo e sua relação com a dor

  A passagem do tempo e a percepção da realidade são idênticas para todos os seres humanos? Ou estes fatores são influenciados por processos psicossomáticos e internos que, ao moldarem nossos sentidos, tornam a noção de tempo e a concepção da existência algo puramente pessoal?  E como lidar, no momento presente, com alguma dor ou doença imuno-afetiva que ocorreu em um passado distante? Seriam estes distúrbios ocasionados apenas por têndências genéticas, problemas posturais/estruturais…ou também por questões psíquicas que afetam a conexão da mente com o corpo?                 

Passado/futuro vs unidades do agora

A noção que se têm sobre a medição do tempo (passado, presente e futuro) não é algo tão exato e preciso como aparenta ser. De acordo com o senso comum, o passado é formado por eventos que já ocorreram, e que somente podemos acessá-los por meio de imagens, frutos de nossas lembranças. E muitos acreditam que estas memórias (imagens) ficam apenas armazenadas em nosso cérebro (sistema límbico) e são imutáveis…não sendo possível alterá-las.

Já o futuro seria constituído por acontecimentos que ainda não ocorreram, que ainda estão por vir…e que, portanto, a priori, nunca existiram.

A idéia geral sobre o presente é difícil de mensurar, por ser algo extremamente tênue e fugaz. Ao digitar estas palavras, por exemplo…em frações de segundo este ato se converteu em um evento passado. Para um leitor que está lendo estas mesmas linhas (ou que irá lê-las dentro de 5 min), a mesma sensação ocorre, de que o presente é um momento real, porém extremamente breve, efêmero…uma sutil linha móvel entre o passado e o futuro. Seria realmente o momento presente algo tão breve e instantâneo? Ou justamente o contrário?

O físico Albert Einstein, autor da teoria da relatividade, dizia que “a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão”. Uma interessante concepção atual sobre o tempo vai um pouco de encontro ao conceito de Einstein: de que efetivamente não existe passado e futuro, e sim unidades (ou porções) do agora. Uma unidade do agora seria a capacidade de consciência necessária que temos para lidar com o imediato. Quanto mais presente no corpo e silenciosos estivermos (sem elucubrações mentais excessivas, vulgo diálogo interno), mais a percepção do agora tende a ser expandida.

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Dor, somatização e a quebra da conexão mente/corpo

Bebês recém-nascidos não possuem a noção de transitoriedade do tempo, de causalidade…ou seja, o discernimento de que um acontecimento somente ocorre após um outro acontecimento. Para eles, também não existe passado ou futuro: o tempo se resume meramente ao aqui e agora. Seria esta uma maneira adequada de perceber o tempo?  Ou isto acontece devido aos nenéns ainda não terem desenvolvido plenamente a parte racional (neocórtex) do cérebro? Isto é, a nossa peculiaridade de pensar, raciocinar, abstrair, do desenvolvimento da fala, da linguagem…

Sim, os bêbes e as crianças pequenas, no sentido da assimilação e da vivência do tempo presente, têm muito a ensinar a nós. Com o passar dos anos, os adultos tendem a perder a inteligência instintiva do corpo, em detrimento do desenvolvimento da racionalidade, da linguagem e da mente.  Esta gradual perda de consciência corporal e do contato com as sensações, sentidos e sentimentos internos criam uma ruptura da conexão da mente/psique com o corpo. Com o tempo, esta dissociação pode deflagar uma série de sintomas, dores, somatizações físicas e emocionais: cefaléias tensionais, dor nas costas, dor pré-menstrual, lombalgia (dor lombar), fibromialgia, síndrome de dor miofascial (ou de fadiga crônica), síndrome do pânico, entre tantas outras.

Patologias miofasciais crônicas como dor de cabeça, cefaléias, cervicalgias e dor na parte superior das costas (por exemplo) podem ser bastante amenizadas com a experiência somática (S.E) por meio de um trabalho de sensopercepção nos membros inferiores. Em outras palavras, um aumento das sensações corporais dos pés, pernas, região do quadril e um aprofundamento do ritmo respiratório no intuito de ampliar a propriocepção e o senso de gravidade corporal. A massagem miofascial, ao flexibilizar os encurtamentos e aderências musculares existentes, contribuiria para aumentar os sintomas parassimpáticos do corpo, ou seja, sensações de relaxamento e integração.

Wilhelm Reich, médico e psicanalista austríaco discípulo de Sigmund Freud, foi um dos primeiros a afirmar que as neuroses, os problemas psíquicos e as emoções reprimidas do passado não afetam apenas a mente, mas também criam no corpo (isto é, no presente) o que ele denominou de couraças musculares. Já um estudante de Reich, o psicanalista Alexander Lowen, em seu livro “O Corpo em Depressão: as bases biológicas da fé e da realidade” (editora Summus, 1983), ressalta que “o paciente deve entender a relação de suas atitudes corporais – seus padrões de tensão – com as experiências de sua vida, especialmente com as da infância“.

“O conceito de dor ou doença apenas mental é uma ilusão. Não existe distúrbio mental que também não seja físico… As duas direções do esforço terapêutico – ajudar o cliente a ter contato com seu corpo e com seu passado – são simplesmente duas condutas com o mesmo objetivo, a realidade da pessoa. O corpo é o repositório de toda a experiência e é também o somatório e a expressão das experiências de vida do indivíduo e da espécie. Trabalhando com o corpo, portanto, facilitamos a lembrança de memórias reprimidas e sentimentos reprimidos.

Alexander Lowen (O Corpo em Depressão).

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Ego, crenças e script de vida

Nos primeiros anos de vida (até os 6 anos de idade) as crianças estão começando a absorver os efeitos das convenções sociais humanas, a tríade ego/mente/eu social ainda está em formação. O ego, como parte de nossa mente, é um sistema fechado de pensamentos, sentimentos e comportamentos que criamos para nos adequarmos a realidade externa e as pressões parentais (mãe, pai, tios, avós, babás, etc) que sofremos na infância, isto é, no passado. A partir desta estrutura egóica serão elaborados os valores e crenças que levaremos pelo restante de nossas vidas no futuro.

Crenças, efetivamente, são idéias carregadas de emoções. Por serem construções mentais sem um alicerce corporal, as crenças estão ancoradas no passado…e não no presente. Estar no aqui agora é perceber a vida e a realidade diretamente, por meio das sensações corporais, dos sentidos e dos instintos básicos de sobrevivência.

Na abordagem psicanalítica conhecida como análise transacional (A.T), desenvolvida pelo psiquiatra Eric Berne, utiliza-se o termo script de vida, que seria este conjunto de decisões que tomamos no passado (infância) frente as influências de nossos cuidadores e do meio ambiente que nos cerca. Decisões estas que determinarão vários aspectos em nossas vidas (hábitos, vícios, dinheiro, relacionamentos, filhos, doenças, estrutura corporal, padrões de tensão e de dor, etc).

Diálogo interno…o que você diz para si mesmo?

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Uma outra faceta do nosso ego bem conhecida é uma conversa mental diária e incessante que temos conosco mesmo em nosso íntimo, uma voz interior geralmente preocupada com o passado e ansiosa com as tarefas do dia-a-dia…o diálogo interno. Às vezes o diálogo interno é um monólogo: “Amanhã cedo eu vou pagar a conta na casa lotérica e depois ir ao trabalho. Espere aí, será que eu não consigo pagar esse boleto via internet?”. Em outras situações, pode se tornar um diálogo: “Amanhã eu vou pagar essa conta na lotérica e depois ir ao trabalho”…e uma outra voz responde: “Porquê você não tenta pagar esta conta agora pela internet? Economizará tempo para amanhã!”

Algumas correntes da psicanálise e da psicologia dizem que o diálogo interno (ou a ‘voz’ que temos em nossas cabeças) pode ser positivo – caso seja um pensamento motivador – ou negativo – se for uma voz crítica ou autodepreciativa. Um outro ponto de vista a respeito é de que o diálogo interno, por ser uma projeção da mente e de crenças/idéias forçadamente introjetadas no passado, sempre é desfavorável por nos afastar do momento presente e da realidade objetiva. É importante que fique bem claro que o díalogo interno é bem diferente do pensamento silencioso: enquanto o primeiro é barulhento, estridente, gerando desgaste, perturbação e estresse, o segundo é como se fosse um susurro, sucinto e objetivo…trazendo paz e orientação.

Sociedade do ‘espetáculo’

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Vivemos nos tempos atuais em uma comunidade global que supervaloriza o diálogo interno, além da fuga da realidade e do momento presente. É chamada por muitos estudiosos como ‘sociedade do espetáculo’, cada vez mais obcecada pela tecnologia, por curtidas, selfies, compartilhamentos e ‘aprovações’ em redes sociais. Um meio onde as interações virtuais, as aparências, a compulsão (de muitos) em se tornar uma celebridade ou ter algum tipo de reconhecimento…se sobrepõem ao contato direto e real. É o reino do ego, do ‘ser quem eu quiser online’. Mesmo para adutos que sabem (ou deveriam) distinguir fantasia de realidade, observa-se um alto grau de dependência do ciberespaço. E, infelizmente, o aumento de casos de loucura, demência mental, crimes, futilidades e banalidades. Em 2015 a Organização Mundial da Saúde noticiou que 47 milhões de idosos em todo o mundo foram afetados por demências mentais. E a estimativa é que este número triplique pelos próximos anos. O assunto torna-se ainda mais preocupante se pensarmos nos jovens e crianças que nascem cercados de smartphones, tablets e tecnologia móvel…e de pais igualmente ausentes. O problema não está, obviamente, na tecnologia ou na internet – são apenas ferramentas – mas sim, do uso obssessivo e compulsivo da mesma.

Estar presente, ansiedade e a vivência do tempo

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A realidade e o mundo externo são percebidos pelos nossos sentidos (audição, paladar, tato e visão). Estes mesmos sentidos encontram-se conectados, de forma íntima, a percepção humana de tempo. Quanto mais centrada e consciente estiver uma pessoa em teu corpo (e com menos diálogo interno), maior a vivência e profundidade que a mesma terá do momento presente. Assim sendo, um simples passeio em um parque numa manhã ensolarada de um domingo terá efeitos distintos na percepção do tempo de um bebê de 10 meses em relação ao pai (Samuel, nome fictício) de 40 anos. Embora os ponteiros do relógio demonstrem que os dois estiveram no parque durante as mesmas 3 horas (das 8 até as 11hs), a experiência temporal será diferenciada para cada um. O bebê, por naturalmente estar em contato intrínseco com teus instintos, sensações físicas e sentidos, perceberá de forma visceral cada minuto e nuance daquele passeio: o frescor da brisa e o sol da manhã no rosto, o cheiro das árvores, ouvirá o cantarolar dos passarinhos, verá os patos e as tartarugas nadando em uma lagoa próxima, sentirá alegria e sorrirá ao ver pessoas conhecidas, apreensão e choro ao visualizar desconhecidos, etc. Estas 3 horas para o bebê durarão uma eternidade se comparadas a vivência do teu pai do mesmo período: preocupado e apreensivo com uma viagem de negócios que terá que fazer na manhã do dia seguinte, Samuel confere o tempo inteiro as mensagens e áudios do teu whatsapp para saber de um sócio se ele conseguiu recuperar parte de um arquivo de apresentação (powerpoint) que será necessário para uma importante reunião. O seu diálogo interno está a mil com frases do tipo: “Será que o arquivo ficou naquele HD externo lá do meu antigo escritório?”…”Ou será que está salvo na nuvem do meu email?”. “Devo fazer o check-in online assim que chegar em casa hoje?”

Samuel está passando a manhã com seu filho no parque, porém…apenas uma pequena parte dele está focada no presente. Ele não está atento ao momento atual, ao bebê e nem a realidade que o cerca. Teus pensamentos, caso estivessem fluidos e coerentes com tua percepção corporal, sentimentos e comportamentos, isto é, com o aqui e agora, possivelmente lhe trariam uma solução para os problemas que lhe tanto afligem. Porém, ao contrário, teus pensamentos se transformaram em um diálogo interno incessante que lhe deixará pré-ocupado com questões futuras e transtornado por um dos sintomas vilões da sociedade contemporânea: a ansiedade.

“A ansiedade, fator fundamental das neuroses, é um sintoma não apenas psíquico (como acreditava Freud), mas também somático, que afeta o corpo e pode gerar dor e patologias futuras. É uma resposta à pressão de impulsos instintivos subjacentes, um alerta para o ego de que uma idéia ou impulso inadmissível está tentando adquirir representação consciente. Caso esta ansiedade não seja liberada e chegue a um nível crônico, terá como alvo o sistema circulatório e o coração. A síndrome do pânico – ou o medo de ter um infarto do miocárdio – será a doença principal”.

Técnicas como a massagem terapêutica, miofascial/esportiva, e abordagens tais como a análise transacional e a experiência somática (S.E) são alguns dos vários recursos existentes para silenciar o diálogo interno e aumentar o embasamento e a presença corporal. Em suma, auxiliar na unificação da mente com o corpo. Exercícios de respiração, meditação, yoga, artes marciais, caminhadas (etc) também podem colaborar para a mesma finalidade.

Não seja aquilo que te fizeram

No final do filme Logan (2017) há uma cena em que o personagem principal, interpretado pelo ator Hugh Jackman, está a beira da morte e se despede de tua filha Laura Kinney / X-23 (Dafne Keen). Logan solta a seguinte frase: “Don’t be what they made you” (não seja aquilo que te fizeram). Esta fala, na minha compreensão, pode ser um conselho para que Laura não siga a essência de teu script:

“O script de vida é isto: o que fizeram a nós (contra nossa vontade) na tenra infância. Um conjunto de pensamentos, sentimentos e comportamentos impostos por terceiros, no passado, e que adotamos (dramaticamente) como se fossem nossos. Por não ser genuíno, este sistema restringe opções e acaba ditando as crenças e hábitos que serão o alicerce de nosso futuro. Crenças estas que, por terem sido formadas no passado, substituirão a vivência do corpo (presente). A partir destas emoções, será formada uma história pessoal que se adequa ao script e, ao mesmo tempo, o cria.”

script-de-vida-dor-crenças-II Passado, presente e futuro: o entrelaçamento do tempo e sua relação com a dor

 

“O passado é inapreensível, o presente é inapreensível e o futuro é inapreensível. Portanto, todos nós nesta sala, estamos aonde? Estamos no passado? Não. Estamos no futuro? Não. Estamos no presente? Não, não podemos sequer dizer que estamos no presente…O máximo que podemos comentar é: somos o momento presente… O que temos de fazer com constância é apenas criar uma discreta transição do mundo vertiginoso; o reino dos sonhos que temos dentro de nossas mentes para o momento presente, o preciso aqui e agora…a imensa e verdadeira realidade que existe.”

   Charlotte Joko Beck (Sempre Zen: Como introduzir a prática do Zen em seu dia a dia).

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O blog Masso & Ki Terapia possui uma série de artigos relacionados a área de massoterapia (massagens) e de abordagens naturalistas e corporais. Caso queira receber estes conteúdos via email, clique aqui.

 

Referências e fotos.

  • BECK, Charlotte Joko. Sempre Zen: Como introduzir a prática do Zen em seu dia a dia. São Paulo: Saraiva, 1991.
  • LOWEN, Alexander. O Corpo em Depressão: as bases biológicas da fé e da realidade. São Paulo: Summus, 1983.
  • Material fornecido por Gustavo Macedo Dutra (médico, psiquiatra e psicoterapeuta).
  • https://www.methodus.com.br/artigo/172/as-doencas-da-emocao.html
  • https://pixabay.com/.
  • https://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:P%C3%A1gina_principal
  • https://super.abril.com.br/ciencia/questao-de-tempo/
  • https://pt.wikipedia.org/wiki/Tempo

Massoterapeuta, Terapeuta Corporal e Profissional de S.E. Atua há dez anos na área de massoterapia, terapias corporais e de abordagens naturalistas.

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