Massagem, dores crônicas e a consciência de si (Parte III)

            Nesta terceira parte serão analisados alguns trabalhos corporais e abordagens naturalistas que, somadas a massoterapia, podem contribuir para a compreensão das causas, sintomas e resoluções de muitas dores musculares crônicas, além de síndromes miofasciais em geral.

“Eu estava dirigindo quando um carro não conseguiu parar no sinal de PARE e entrou, de repente, na estrada, vindo de um entrocamento com uma rua lateral. O outro motorista não me viu a tempo e bateu no lado esquerdo do meu carro. Eu também só o enxerguei no último minuto e não pude evitar o acidente.

Fiquei sentado no carro por um momento, aturdido. Percebendo que estava bem, saí do carro para avaliar os danos. Embora o carro estivesse bem amassado, não me incomodei muito com isso, porque o outro motorista tinha seguro e o relatório da polícia iria mostrar que o culpado era ele. Também me peguei pensando que, de qualquer modo, eu já queria pintar mesmo o carro.

driver-suffering-whiplash-traffic-collision-male-31864327Eu me sentia muito bem, quase eufórico. Estava feliz com o modo pelo qual passei do acidente para uma difícil reunião de negócios mais tarde naquele dia. Eu estava preparado para a reunião e lidei muito bem com ela.

No dia seguinte, comecei a me sentir agitado. Havia uma rigidez no meu pescoço, no ombro direito e no braço, e isso me surpreendeu, pois tinha sido atingido no lado esquerdo.”

(Levine, 1993, p.208)

Não tive nenhuma lesão séria…por que sinto dor?  

O episódio verídico acima, mencionado no livro O Despertar do Tigre (Peter Levine, Editora Summus Editorial), demonstra que, mesmo acidentes de baixa intensidade (sejam eles automobilísticos ou de outra natureza), nos quais não há lesões ou traumas físicos graves, podem gerar, em um curto espaço de tempo, dores musculares crônicas, ou um quadro de dor miofascial, nas vítimas envolvidas.

Há diversos relatos de pessoas que sofreram acidentes de pouco impacto que, após alguns dias ou semanas, passaram a se queixar de desconfortos como dores de cabeça, cefaléias, torcicolos, dores nas costas, lombalgias… sem nenhum motivo ou razão aparente. Casos de indivíduos que passam a ter dores terríveis depois de estarem sentados no carro, esperando o sinal abrir, quando outro carro chega e colide por trás, a velocidades de apenas 15, 20 quilômetros por hora.

Normalmente consulta-se profissionais médicos como ortopedistas, neurologistas ou fisiatras que, após algumas avaliações, indicam exames de Raio-X ou IRM (Ressonância Magnética) para auxiliar no diagnóstico. Porém, há casos em que estes exames não identificam nenhum tipo de lesão óssea e nem lesões nos ligamentos, tendões e músculos, os chamados tecidos moles.

Os exemplos acima levam a uma pergunta crucial: o que fez estas pessoas apresentarem sintomas característicos de dores musculoesqueléticas, sem que nenhuma lesão física tenha sido detectada nos acidentes citados?

Dores crônicas, sintomas traumáticos e energia

De acordo com a Experiência Somática, uma abordagem naturalista para a resolução e cura de distúrbios do estresse pós-traumático desenvolvida pelo biofísico norte-americano Peter Levine (clique aqui para ler um artigo do blog sobre a mesma), os sintomas de estresse traumático não são gerados exclusivamente pelo acidente desencadeador, e sim pelo resquício congelado de energia que não foi resolvido e descarregado apropriadamente. Entende-se como sintomas ‘traumáticos’ ocorrências emocionais como ansiedade, síndrome do pânico, problemas psicossomáticos, e também dores musculares crônicas e quadros miofasciais e álgicos como a fibromialgia, ciatalgia, entre tantos outros. Estes sinais fisiológicos são a forma que o corpo encontra para lidar e conter a energia retida.

Em outras palavras, são os recursos que a pessoa dispõe no momento para lidar com situações estressantes, sejam elas acidentes, assaltos, quedas, partos difíceis, cirurgias…eventos os quais seu organismo percebe como uma ameaça à vida, que determinarão os potenciais efeitos traumáticos em seu corpo e espírito. Em circunstâncias extremas, o corpo responde de uma tal maneira que toda a energia disponível será direcionada para uma ação defensiva, para garantir a própria sobrevivência. Se esta energia excedente não for liberada devidamente, persistirá no organismo, causando uma série de sintomas. Estes sintomas deixarão nosso sistema nervoso (SN) em um estado de ativação e alerta frequentes, mesmo quando não houver nenhum perigo mais por perto.

Cérebro ancestral  

Uns dos segredos para lidar e curar os sintomas traumáticos e as dores crônicas subsequentes está na percepção de nossa fisiologia e de suas reações instintivas. Por meio de estudos e pesquisas, descobriu-se que as partes primitivas do cérebro e sistema nervoso humano são bem semelhantes a de nossos irmãos mamíferos, e também dos répteis.

A teoria do cérebro trino, desenvolvida pelo neurocientista Paul MacLean, divide o cérebro humano em três segmentos:

  • Mamífero ou límbico (emocional) – controle do comportamento emocional, expansão dos sentimentos e emoções.
  • Humano ou Neocórtex (racional) – é o que diferencia o ser humano dos demais animais, responsável pelo pensamento abstrato, linguagem, tomada de decisões.
  • Reptiliano – parte instintiva e ancestral, relacionada a reações de sobrevivência (fuga, luta e congelamento).

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    Fig. 2 – O cérebro trino e suas 3 divisões

O dilema: fugir, lutar ou paralisar?  

O impasse começa aí: ao contrário dos animais selvagens, nós, humanos, temos dificuldade, muitas vezes, em encontrar uma saída adequada frente a situações ameaçadoras, eventos em que uma parte visceral nossa encara como uma experiência de aniquilamento. Isto ocorre, em grande parte, devido a tendência de nosso cérebro racional de sabotar e dominar os impulsos instintivos necessários:

“[…] embora frequentemente imobilizados diante da ameaça, os humanos raramente descarregam a energia de fuga/luta retida, talvez por causa dos centros cerebrais cognitivos altamente desenvolvidos, que tendem a suprimir muitos comportamentos instintivos ou por causa dos padrões culturais adquiridos (in SCAER, 2001. p.xxi).

Percebendo as sensações corporais –  sensopercepção 

Tudo em nossa vida que é considerado pelo sistema nervoso como ‘demais’, ‘além do limite’, nos sobrecarrega. Isto pode gerar em nosso organismo um mecanismo de alerta e hipervigilância constantes. Uma abordagem de consciência corporal, que trabalhe as sensações ‘sentidas’ (sensopercepção), pode orientar o cliente para que este desenvolva recursos internos para enfrentar situações de estresse e sobrecarga em seu dia a dia.

Felt Sense (Sensopercepção) não é uma percepção mental, mas sim corporal. É uma consciência corporal da pessoa, da situação ou do evento. É uma aura interna que inclui tudo que você sente e sabe sobre o assunto dado, num dado tempo – incluindo e comunicando a você tudo, detalhe por detalhe”. (citado em LEVINE, 1997.)

Wilhelm Reich, médico e psicanalista austríaco nascido no final do século XIX, utilizava o termo ‘auto-regulação’ ao invés de sensopercepção, que seria, de acordo com ele, “a capacidade do ser humano de ouvir sua própria natureza, estar em contato com suas próprias necessidades, permitindo que o organismo cumpra seu fluxo de carga e descarga das emoções, tensões e traumas”.

Ameaça e estresse / relaxamento e expansão – simpático vs parassimpático

Aprender a ‘escutar’ e conectar com nosso próprio corpo, utilizando a sensopercepção para lidar com sintomas traumáticos e dores crônicas, requer a compreensão de um fundamento básico: a relação entre o nosso sistema nervoso autônomo (SNA) com os instintos básicos de sobrevivência do cérebro reptiliano (fuga, luta e congelamento).

O SNA é o segmento de nosso sistema nervoso que está ligado ao controle da vida vegetativa, controlando funções como a respiração, circulação sanguínea, controle de temperatura e digestão.  Divide-se em duas partes:

1 – Sistema Nervoso Simpático – impulsiona ações que permitem ao organismo responder a situações de ameaça ou estresse, como as reações de fuga, luta e congelamento (provocadas pelo cérebro reptiliano). Ações e sintomas corporais associados:

  • Aceleração dos batimentos cardíacos (taquicardia);
  • Aumento da pressão arterial;
  • Aumento da frequência respiratória (respiração curta e superficial);
  • Sensação de ‘frio’ na barriga;
  • Sensação de urgência, hipervigilância;
  • Campo visual restrito;
  • Tensão muscular/compartimento (preparação para lutar, fugir ou paralisar).

2 – Sistema Nervoso Parassimpático –  responsável por perpetuar ações que permitem ao nosso corpo responder a situações de calma. Sintomas corporais relacionados:

  • Diminuição dos batimentos cardíacos;
  • Normalização da pressão arterial;
  • Diminuição da frequência respiratória (respiração pausada e profunda);
  • Sensação de calor no abdômen e nas extremidades do corpo (mãos e pés);
  • Visão periférica ampla;
  • Sensação de relaxamento (muscular), expansão.

    SN autônomo
    Fig. 3 – SNA Simpático/Parassimpático e suas funções

O rio e seus vórtices   

Levine faz uma analogia interessante ao comparar a sensopercepção em nosso corpo com um riacho, um rio que se move por uma paisagem em permanente transformação. Os redemoinhos presentes neste riacho seriam vórtices de dois tipos (figuras 4 e 5):

  • Vórtice de trauma: sensações de desconforto, estresse (sistema nervoso simpático);
  • Vórtice de cura: associado a sensações de relaxamento, prazer (sistema nervoso parassimpático).

    Vórtice de trauma
    Fig. 4 – O riacho de nossas experiências de vida interiores (energia vital) e o rompimento da margem (proteção) corporal – formação do vórtice de trauma
Vórtice de cura
Fig. 5 – O corpo reencontrando o equilíbrio – criação do (contra) vórtice de cura

Um organismo saudável seria exatamente isto: um córrego, ou correnteza que flui naturalmente do estado de ativação (simpático) para o de relaxamento (parassimpático). Em uma sessão que envolva trabalho de rastreamento corporal, com o intuito de ajudar alguém com dores crônicas, é necessário seguir alguns passos abaixo para se obter êxito:

Ache uma ‘âncora positiva’ em seu corpo  

Quando um copo d’água está cheio até a borda, qualquer gota a mais poderá fazer o mesmo extravasar. Com a dor crônica ou miofascial é a mesma coisa: qualquer pequeno estímulo pode aumentar ainda mais a tensão já existente. Por isto, no início do atendimento é importante ajudar a pessoa, por meio da sensopercepção, a perceber alguma parte do seu corpo que traga uma sensação de acolhimento, expansão ou de bem-estar. Quaisquer sensações parassimpáticas listadas anteriormente são bem-vindas: mãos ou os pés quentes, respiração profunda e calma… ou a lembrança de alguma atividade ou passatempo que a faça se sentir bem, desde que esta memória seja associada a alguma sensação corporal que ela esteja sentindo no momento.

Rastreie a dor, dentro de um limite suportável

Depois de orientar o cliente a saborear, alongar e permanecer com a sensação agradável (parassimpática) durante algum tempo, mude o foco para a dor, indagando: como ela está agora? É tolerável senti-la? Caso seja, ajude a rastrear e a ‘dissecar’ esta tensão: como é esta dor? Ela pulsa, lateja, queima? Se estiver insuportável, volte a atenção novamente para alguma sensação de relaxamento e expansão do corpo. Este vai e vem entre o vórtice de cura e o vórtice de trauma tende a reequilibrar o organismo.

Fique atento aos micro-movimentos  

Quando uma parte de nosso corpo se encontra no estado simpático, ou seja, de ativação, estresse, sensação de aperto, dor, etc…uma das maneiras fisiológicas que a energia oriunda desta tensão crônica encontra para se dissipar é por meio de micro-movimentos sutis, que fazem parte de uma classe de sensações chamadas de sentidos autonômicos e cinestésicos:

  • Sentido autonômico: tremores e movimentos involuntários; movimentos oculares; micro-movimentos com a cabeça (buscando reorientação);
  • Sentido cinestésico: contrações/tensão muscular.

“Nosso corpo é a inscrição viva do nosso percurso existencial”

(Aldrighi, 2014, p.64)

Trabalhos corporais e Terapia por Massagem

Nos EUA é comum a associação de terapias e trabalhos corporais, tais como a Experiência Somática, com técnicas como Deep Tissue Massage (Massagem em tecido profundo) e Rolfing. Outras abordagens como a Psicologia e Massagem Biodinâmica de Gerda Boyesen e a Bionergética de Alexander Lowen – todas elas evoluções dos trabalhos corporais de Wilhelm Reich – reconhecem que não existe separação entre mente e corpo, sendo o corpo o local onde questões psíquicas, traumáticas e emocionais podem ser acessadas.  

A massagem pode se tonar uma porta de entrada para o alivio e resolução de dores crônicas, tendo ciência que estes sintomas podem ser somatizações não apenas de fatores mecânicos e posturais, mas também de conteúdos psicológicos. De acordo com os trabalhos corporais citados, o corpo, por carregar todo nosso histórico de vida psíquico e emocional, acaba sendo moldado, estruturalmente, por estes aspectos internos. Sendo assim, tensões crônicas, desvios posturais, encurtamentos musculares, entre outras moléstias, são  a maneira que nosso inconsciente/subconsciente encontra para projetar e somatizar seus conflitos.

Cada vez mais médicos e outros profissionais de saúde reconhecem que boa parte das patologias do corpo físico possuem um componente emocional que não pode ser ignorado. No caso das doenças músculoesqueléticas, ou simplesmente dores crônicas ou miofasciais, talvez esta somatização emocional-corporal seja ainda mais evidente.

SICAS

Em um próximo artigo será detalhada a maneira como alguns itens da percepção corporal se associam, em relação as experiências vividas e ao meio ambiente: sensação, imagem, comportamento, afeto e significado (Sicas).

“A mente esquece, mas o corpo, felizmente, não”.

(Freud).

O que você achou deste texto? Também concorda que abordagens corporais podem ser associadas à massagem e outras terapias no tratamento de dores crônicas? Deixe seu comentário a respeito.

Caso queira ler outros artigos deste blog, clique nos links abaixo:

 Rogério Neves

Referências e fotos.

  • LEVINE, Peter A. O Despertar do Tigre: Curando o Trauma. São Paulo: Summus, 1999. 238 p.
  • http://massagembiodinamica.com.br/psicologia-biodinamica-e-experiencia-somatica/
  • Material fornecido por Gustavo Macedo Dutra (médico, psiquiatra e psicoterapeuta).
  • MOTTA, Raquel Cunto. Avaliação da Imagem Corporal durante o
    Processo do Rolfing®. 117 f. Dissertação de Mestrado (Faculdade de Educação Física) – (Universidade Estadual de Campinas), Campinas, 2003. Disponível em:  <http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000300851>
  • http://psicologatorres.com/terapia-emdr/
  • http://www.afh.bio.br/nervoso/nervoso4.asp
  • http://estaremsi.com.br/video-entrevista-com-alexander-lowen-legendado.html
  • http://sulla-salute.com/saude/medicina-alternativa/massagem-profunda.php
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