Massagem, dores crônicas e a consciência de si (Parte II)

   Nesta segunda parte serão mencionados outros aspectos fisiológicos e somáticos do estresse e das dores musculares e miofasciais, formas de tratamento por meio de técnicas da massoterapia e  uma introdução sobre trabalhos corporais que podem ser associados as mesmas.

Diz um ditado japonês, oriundo de uma arte marcial chamada Aikidô, que o relaxamento é o elixir da vida. Já o estado oposto e antinatural que muitos seres humanos se encontram é a tensão nervosa ou estresse crônico. De acordo com o mesmo provérbio, o estresse contrai os vasos sanguíneos, dificultando a expulsão das impurezas do corpo, nos tornando, desta maneira,
suscetíveis a muitas doenças.

Entre as patologias associadas ao estresse, as dores musculoesqueléticas (ou simplesmente dores musculares) são uma das mais corriqueiras, servindo como porta de entrada a outras tantas enfermidades. Mas como se define a dor, em termos gerais, e como classificar as suas variadas vertentes?

“O estresse nos prepara para ‘lutar ou fugir’, mas não lutamos nem fugimos: apenas ficamos tensos e preparados. Nós nos blindamos, nos defendemos e nunca relaxamos”.
Trecho da apresentação de Douglas C. Lewis, do livro Guia Prático: Disfunções Musculoesqueléticas, de Leon Chaitow.

Dor… o que é?

Um interessante debate a respeito deste tema pode ser encontrado em um artigo nomeado Basic Concepts in Pain Physiology (Conceitos básicos sobre a fisiologia da dor), escrito pela American Medical Massage Association (AMMA) no site http://www.americanmedicalmassage.com. De acordo com este artigo, fundamentado na terminologia da dor sistematizada e desenvolvida pela International Association for the Study of Pain (Associação Internacional para o Estudo da Dor), a dor é uma experiência psicológica resultante de um estímulo fisico. Em outras palavras, a dor é uma emoção expressa por uma sensação.

Tipos de Dor

Segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor, existem quatro tipos de dor:

  1. Neurológica;
  2. Química;
  3. Emocional;
  4. Miofascial.

Neste artigo serão tratados alguns tópicos das duas últimas condições ( dor emocional e miofascial), visto que são as que mais predominam em atendimentos nos consultórios e salas de massoterapeutas e terapeutas corporais diversos.

Chaitow, dor miofascial e pontos-gatilho

A dor miofascial também é conhecida como dor do tecido mole (veja definição) ou somática. Ela é uma consequência do espasmo muscular ou da distensão do tecido mole. Existem duas maneiras em que a mesma se manifesta: isquemia e dor resultante de ponto-gatilho (ambos os casos, tratados de forma eficiente pela massoterapia).

De acordo com Leon Chaitow, osteopata britânico e um dos ícones da massagem científica (figura

Leon Chaitow (http://leonchaitow.com/)
Figura 2: Leon Chaitow
(http://leonchaitow.com/)

2), quando os músculos se tornam tensos em virtude de esforços extremos, utilização incorreta, maus hábitos posturais (etc.), tendem a desenvolver regiões específicas que se tornam extremamente sensíveis e irritadiças. Essas áreas (ou pontos) são conhecidas como pontos-gatilho (trigger points), que se tornam doloridos à palpação e irradiam dor para tecidos distantes. Estes pontos, segundo pesquisadores, estão envolvidos em muitos casos de dores crônicas musculares e sintomas decorrentes, sendo, em algumas situações, a causa principal destes.

Técnica neuromuscular: compressão terapêutica ou isquêmica?

Técnica de compressão terapêutica com os polegares para desativação de ponto-gatilho no trapézio superior.
Figura 3 – Técnica de compressão terapêutica com os polegares para desativação de ponto-gatilho no trapézio superior.

Dentro da massoterapia há diversas técnicas de liberação neuromuscular que ajudam a reduzir ou atenuar padrões de tensão muscular, câimbras e pontos dolorosos existentes.

A musculatura do trapézio superior, por exemplo, é uma área que, devido a fatores biomecânicos e posturais (citados anteriormente), costuma acumular muita tensão e, consequentemente, desenvolver alguns pontos-gatilho. Uma maneira de tratá-los é utilizar uma técnica neuromuscular conhecida como compressão terapêutica direta ou pressão inibitória com os polegares (veja figura 3). Antigamente esta técnica era chamada de compressão ‘isquêmica’, porém denominá-la terapêutica é mais adequado, pois é aconselhável que a pressão utilizada com o polegar não ultrapasse a tolerância de dor do cliente.

Pontos-gatilho no trapézio superior podem também estar ativos e doloridos como consequência de uma tensão existente nos músculos peitorais. Além disso, trigger points neste músculo (trapézio) costumam irradiar dor para as têmporas e para o músculo occipital (base da nuca), causando muitas vezes a chamada ‘cefaléia tensional’.

Técnicas miofasciais para encurtamentos musculares

Várias técnicas miofasciais também podem ser utilizadas para aliviar restrições musculares e miofasciais. Lembrando que qualquer técnica destinada a alongar a fáscia (seja ela superficial ou profunda, localizada ou de plano amplo) será considerada uma técnica miofascial.

Um exemplo de técnica miofascial – localizada e profunda – para trabalhar tensões nas musculaturas do trapézio superior, levantador da escápula e cervicais posteriores é o rolamento muscular, uma forma mais profunda e tridimensional do rolamento de pele (figura 4).

Rolamento muscular para as musculaturas do trapézio, levantador da escápula e cervical posterior)
Figura 4 – Rolamento muscular para as musculaturas do trapézio, levantador da escápula e cervical posterior)

O objetivo desta manobra é de agarrar uma porção completa de um músculo, de forma que a mesma role entre os dedos do terapeuta, movendo as fibras para separar o tecido adjacente. Ao se separar estas fibras musculares de maneira branda, é possível identificar áreas com restrição miofascial, bem como localizar pontos-gatilho que, a partir daí, podem ser trabalhados por uma técnica neuromuscular adequada (como a compressão terapêutica direta – figura 3).

No vídeo abaixo, do canal Myofascial Release Massage (Youtube), o terapeuta aplica uma técnica miofascial de plano amplo para a musculatura do trapézio e latíssimo do dorso:

Rastreando sensações simpáticas e parassimpáticas: o corpo como agente de cura

O tópico acima será um dos temas do próximo artigo (3a parte). Nele, serão mencionadas algumas abordagens de percepção corporal (sensopercepção) que complementam e auxiliam de maneira eficaz as sensações fisiológicas de relaxamento que uma sessão de massagem traz. Perceba se o seu cliente, durante o atendimento, está apresentando sintomas associados a situações de ameaça e estresse (simpático), ou sensações de relaxamento e expansão (parassimpático). A partir daí, ajude-o a rastrear estes sinais, com o objetivo de reduzir as tensões musculares e de fazê-lo reencontrar o equilíbrio.

Dúvidas, críticas, sugestões ou comentários sobre o texto acima? Poste sua opinião a respeito.

Rogério Neves.

Referências e fotos.

  • ARCHER, Patricia A. Massagem Terapêutica Esportiva. Barueri, SP: Manole, 2008. 317 p.
  • CHAITOW, Leon. Guia Prático: Disfunções Musculoesqueléticas. Manutenção da Flexibilidade e do Equilíbrio. Barueri, SP: Manole, 2008. 182 p.
  • LEVINE, Peter A. O Despertar do Tigre: Curando o Trauma. São Paulo: Summus, 1999. 238 p.
  • STEPHENS, Ralph R. Massagem Terapêutica na Cadeira. Barueri, SP: Manole, 2008. 262 p.
  • http://leonchaitow.com/
  • Myofascial Release Massage: https://www.youtube.com/watch?v=b2Q4-FUb1x4
  • http://www.americanmedicalmassage.com/

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